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Impunidade premiada: políticos condenados seguem no poder e reforçam descrença na justiça
Por Simone Calenzani | Jornalista
No Brasil, a percepção de que “o crime compensa” tem ganhado força diante de repetidos episódios envolvendo políticos condenados por corrupção, abuso de poder e enriquecimento ilícito que continuam exercendo influência política mesmo após decisões desfavoráveis da Justiça.
Embora alguns somem condenações que ultrapassam 100 anos de prisão, a realidade é bem diferente: com recursos e brechas legais, boa parte cumpre, na prática, poucos anos de pena — quando chegam a ser presos. Isso ocorre devido ao direito constitucional à presunção de inocência (art. 5º, inciso LVII da Constituição Federal), que assegura que ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado da sentença.
Esse princípio, fundamental em qualquer democracia, tem sido usado por alguns como escudo para a permanência no poder, mesmo diante de graves denúncias. O artigo 37 da mesma Constituição determina que a administração pública deve seguir os princípios da moralidade, legalidade e eficiência. Mas quando há descompasso entre o que é legal e o que é moral, a confiança da população nas instituições entra em colapso.
A lentidão dos processos e o efeito suspensivo dos recursos criam uma realidade onde políticos com histórico de irregularidades seguem ocupando cargos eletivos, celebrando contratos, tomando decisões e, em muitos casos, sendo reeleitos.
Casos de enriquecimento ilícito e desvio de recursos públicos se acumulam. Patrimônios incompatíveis com a renda declarada, esquemas que envolvem verbas públicas e uso eleitoral da máquina são frequentemente noticiados — e nem sempre punidos com a urgência que a sociedade espera.
Nesse cenário, o eleitorado precisa assumir o papel de fiscal e agente de mudança. É fundamental votar com consciência, rejeitar candidatos fichas sujas e não se deixar seduzir por promessas vazias. A política não pode ser instrumento de autopromoção ou lucro pessoal.
A impunidade custa caro. E, enquanto não houver firmeza no cumprimento das leis e responsabilidade nas urnas, o ciclo se repete e quem paga a conta, mais uma vez, é o povo.
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